Bahia, bahtche!

As diferenças culturais abundam entre os quilômetros que separam a caatinga dos pampas. Tente tomar chimarrão na Bahia e fale palavra Mate, assim como quem não quer nada, vão lhe dizer, “Sai dessa meu irmão!”. Se perguntar por erva, imagine a resposta!

Sim, a Bahia é levemento diferente. Levemente porque, na Bahia, nada, a princípio, seria pesado demais. A princípio, antes da escravidão se tornar favela, antes do calor ser aprisionado em repartições públicas pouco funcionais.

Sim, a Bahia é negra, é espontânea e possui um ritmo lento e sensual. Não que as coisas não aconteçam ou, como dizem por aí, o baiano não trabalhe. Ele trabalha, e certas coisas acontecem com eficácia, tanto quanto em qualquer outro lugar. Mas o ritmo é outro. O tempo se extende na Bahia, para que tudo que é feito em São Paulo com pressa, seja feito ali, no mesmo período de tempo, com bastante parcimônia. Sim, tem outras coisas que não funcionam. Entre elas não está a água de coco.

***

Dona Maria está de pé, sandália havaianas no pé, na porta da borracharia. Uma menina carrega uma bóia encaixada na cintura e está vestida de biquini e sainha de praia, e está pendurada no colo. Outra, vestida da mesma forma, está em pé no chão, de mãos dadas à Maria, sua cabecinha na altura das cochas da negra alta e robusta. Seu João, o esposo, está logo ali atrás, na garage descoberta, lavando um carro com mangueira, e cantando: “É no fim da noite que tudo acontece”. São 8 horas da manhã de qualquer mês do ano, já que todos os meses são parecidos. Dona Maria não se deu por recatada, e respondeu: “Fim de noite nada, meu nêgo. Coisa acontece é o dia todo”, e arrastou a voz com aquele jeito de quem insinua, de quem sorri. E olhou para céu, e, sem perceber, agradeceu o calor por abraçar sua pele “o dia todo”.

Pode parecer uma cena comum. Mas, estava ali uma mãe de família, na presença das crianças, de estranhos que passam na rua, a brincar, insinuar e, ao mesmo tempo, languidamente mexer seu corpo quase despido e suado – tamanha sensualidade feita comum, e a mulher impudica, e sincera, parece comum, e é. Mas incrivelmente só vi isso na Bahia.

Anúncios

Impressões de nordestino:

São Paulo é maior do que o mundo.

Última Hora – Chove em Florianópolis

Se na Bahia é verão o ano inteiro, em Santa Catarina é inverno ano inteiro, com excessão de três meses gloriosos de sol, céu azul e alegria praieria. As duas frases são esteriótipos, mas antes de virar estigmas será que nasceram de um fundinho de verdade?

E hoje choveu muito Florianópolis.  Sair de casa com meu quit floripense nas mãos – e pés (guarda-chuva, casaco e bota) e fui rumo a mais um dia. Lembrei-me de uma canção do conterrâneo Raul Seixas. E inspirada em Raulzito (é quase irresistítivel ou tão normal chamá-lo assim…é como se Raul dissesse coisas que nos tocam tanto que se tornou um grande amigo) segui sem medo da chuva. Afinal…

Mais tarde me disseram – a chuva é boa para terra, para as árvores, para os rios, menos para a gente. Não concordo. Tudo que faz bem para terra faz bem para gente….só que não percebemos porque pensamos que somos separados. Tive que dizer que pensamos assim porque  o ser humano não sabe o que faz bem para ele.

Mumbai, boa bahia da Índia – Os Dobhi Ghats

Por Joana Tavares

Umas da hipóteses para a origem o nome da maior cidade da Índia e a segunda cidade mais populosa do mundo seria uma corruptela do português bom-bahia. Embora pouco aceita pelos dicionários e etimólogos, que apontam para origem hindu e marata do nome, aqui algumas pessoas ainda citam essa opção. Mas atualmente, um dos principais monumentos turísticos dessa boa bahia, que hoje vê-se a olho nu ser absolutamente imprória para banho, o Gateway of India, feito em homenagem à chegada neste porto do rei George V e da rainha Maria no ano de 1911, é mais lembrado pela proximidade aos hotéis Taj Mahal e Oberoi onde aconteceram os atentados terroristas de 26 de novembro de 2008.

Aliás, parece que o Taj e Oberoi estão na ponta da língua em Mumbai.

Hotel Taj Mahal, alvo de terroristas no atentado de 26/11/08.

Hotel Taj Mahal, alvo de terroristas no atentado de 26/11/08.

Assim, nos famosos lavatórios a céu aberto de roupas, os Dhobi Ghats, o guia que se ofereceu a apresentarmos o lugar adiantou-se logo a dizer: “O Taj e Oberoi também mandam suas roupas para serem lavadas aqui”. Bem, se o Taj, hotel que pertence a um dos maiores coglomerados comerciais da Índia, o Tata Groups (pode-se ver de carretas, a serviços de comunicação e chás com esse nome), cuja diária mínima tem o valor aproximado de Rs 10 000 (ou U$ 200), envia suas roupas para lavar nos Dhobi Ghats não deu para saber se é verdade. Mas deu para ver lençois da India Railways pendurados para secar no teto de um dos barracos.

Os Dobhi Ghats são muito indianos, para quem já conhece a Índia e sabe o que isso significa. Moradias improvisadas, pessoas sentadas no chão, mulheres levando cargas na cabeça e, agora que as monsões se iniciam, lama nas ruas ao lado de lixo em geral. De cima da ponte que dá acesso ao local, dá para ter uma visão geral do complexo de 730 pedras onde são lavadas as roupas. Ainda segundo nosso guia, são 10 000 homens trabalhando 16 horas diariamente, sem finais de semana ou feriados. Mas entre os números, o que mais choca realmente é quanto cada um deles ganha por dia: cerca de Rs 100. Isso significa um valor médio entre 2 a 3 dólares, dependendo da cotação da moeda no dia. Então, os trabalhadores dos Dobhi Ghats, integram o grupo de 2 bilhões e 700 mil pessoas  vivendo em pobreza moderada no mundo, de acordo com os níveis do Banco Mundial, que aponta o consumo de menos de 1 dólar por dia como indicador de pobreza extrema.

Sudish, , tem 26 anos, trabalha nos Dhobhi Ghats todos os dias. Fala inglês

Além dos 10 000 trabalhadores, famílias inteiras vivem nos Dobhi Ghats

Além dos 10 000 trabalhadores, famílias inteiras vivem nos Dobhi Ghats

razoavelmente bem, “porque terminei os estudos”, justifica e por isso conseguimos nos comunicar com ele, depois de algumas tentativas frustadas com outros lavadores. Ele nos diz também que ali não há limite de idade, trabalham meninos desde 15 anos de idade, ou até menos.

Homens se banhando, fazendo a barba, escovando os dentes, mulheres com crianças no colo, grupos de crianças correndo, grupos de pessoas fazendo chai em um pequeno fogareiro, passantes trazendo e levando trouxas de roupas – uma msitura do cotidiano de trabalho e das famílias que vivem no local dá a vida peculiar ao Dobhi Ghats.

As visitas ao local são gerenciadas por uma associação e estrangeiro só pode entrar acompanhado por um guia, embora não exista nenhuma entrada formal ou guichê oferecendo o serviço. Mas, ao entrar nas portas laterais que levam ao labirinto de pedras, becos e barracos, logo se é notado e alertado sobre a necessidade de um acompanhante para adentrar o complexo. Uma taxa de Rs 50 por pessoa é cobrada  para fazer um passeio no local. Pelo menos foi esse o valor que pagamos por um guia informal. Em 20 minutos, ele ganhou o que um dos lavadores fariam em 16 horas de trabalho. Trabalho que é duro não só pela carga horária. Entre os homens afundados até o joelho nas pedras cheias de água e produtos, vemos apenas alguns usarem luvas e aventais de plásticos, mas que mesmo assim não protegem as pernas da super exposição à humidade e agentes químicos usados para limpeza das roupas.

Com o pé na Estrada

Cédric e Alice preparando para sair de Bangkok

Cédric e Alice preparando para sair de Bangkok

Viajar o mundo de bicicleta. Dizendo assim pode parecer algo impossível. Imagine adoecer com uma forte pneumonia em um lugar ermo na Índia, ser alvo de caçadores ilegais noturnos no Nepal, e pedalar sem comer no Irã? Pode ser um sonho para alguns, pode ser difícil. Mas não impossível. Alice Creskens, 33 anos e Cédric Trolong, 27, são dois ativistas ecológicos franceses e se conheceram numa passeata contra energia nuclear há cinco anos atrás. Hoje estão na Tailândia depois de terem pedalado 11 países em 11 meses em uma empreitada que esta só começando. Ainda estão planejados mais 2 anos de estrada pela frente.se preparando...

Não foi pelo simples sabor da aventura que eles iniciaram essa viagem. A proposta é ver de perto as causas e os perigos do aquecimento global e apontar para outras questões ecológicas tais como o uso de energia nuclear e de transgênicos – como o caso da soja no Brasil, eles lembram. Além disso querem estar próximos das pessoas de cada lugar que visitam, e mostrar que é possível viajar de forma simples e ecológica. Até agora só pegaram dois vôos, um de Dubai (Emirados Árabes) para Nova Delhi (Índia) e outro de Katmandu (Nepal) para Bangkok (Tailândia) “porque não tinha outra alternativa”. Para registrar o que eles vão descobrindo no caminho e fortalecer a luta ecológica, a família e amigos criaram a Associação Retrato do Planeta (Association Portrait de Planete).

Do relato dos viajantes, alguns momentos foram muito marcantes. No Irã, devido a religião mulçulmana, Alice teve que cobrir o cabelo com um chale e usar roupa de manga comprida no calor de setembro. E ainda era mês do Ramadã, quando não se pode comer durante o dia. Eles acabaram decobrindo ofertas na rua e foram comer ilegalmente em um quarto na companhia de iranianos também transgressores. O casal foi duas vezes alvo de caçadores ilegais, a primeira vez na França e outra vez no Nepal. Na França, chegaram a noite e o camping estava fechado, foram a uma mina, e acamparam ali. Estavam próximo a área proibida da mina, porém do lado de fora, e ao lado de uma pequena floresta. Escutaram o barulho do carro se aproximando. Conseguiam identificar algo como conversa entre jovens que bebiam, quando ouviram os tiros. Tentaram avisar que estavam ali, mas em resposta escutaram novamente tiros vindo em sua direção. A solução foi correr para estrada e pedir a ajuda em busca da polícia. Já no Nepal foi mais difícil, pois não podiam se comunicar como não sabiam a língua e também ficaram receosos pois estavam em uma país que não conheciam. Era noite, 8h quando escutaram os tiros. Acabaram a noite deitados na barraca assustados com o acontecido. Mas a pneumonia de Cédric na Índia foi o fato mais assustador. Chegaram mesmo a pensar em desistir da viagem e voltar a França imediatamente. Ele ficou dois dias sem ser diagnosticado com promessas tal como amanhã irei checar dos médicos contactados. A doença foi descoberta já em estado bem avançado. Mas a hospitalidade durante o período de tratamento que durou três semanas também entrou para a história. Ficaram hospedados em um templo Sikh, com o apoio da comunidade local, que não falava inglês, mas os receberam como parte da família.

Entres os lugares bonitos que visitaram está a Ilha Qeshm no Irã, os Himalaias e Curdistão. O pior – sem sombra de dúvida, foi Dubai, dizem – onde “não há humanismo. É uma cidade artifical, feita para carros, onde andar de bicileta significa que não se tem dinheiro para comprar um carro – assim os ciclistas não são vistos nem respeitados”. Bangkok, onde nos encontramos, também, segundo eles, é uma cidade feita para carros, com ruas proibidas para bicicletas – eles foram repreendidos pela polícia enquanto pedavam inadivertidamente em uma delas. Também lá os motoristas não respeitam os ciclistas dirigindo em velocidade a distâncias muito próximas da bicibleta.

Como conseguiram realizar essa viagem? Alice e Cédri não possuem celular, TV, e venderam o carro para investir no projeto. Segundo eles, não fazer parte da sociedade de consumo possibilitou economizar “Quanto mais coisas se têm em casa, mais dificil é viajar, pois todo mês tem que pagar uma casa, um carro e outras contas, assim fica difícil economizar”. Os amigos colaboraram também com pequenas quantias de 5 a 10 euros.

Ao contrário do que podemos imaginar a preparação física não foi muita extensiva. Dois meses antes da jornada se arriscaram pela França durante os feriados. A bicicleta que usam e que chama muita atenção por onde passam é do tipo Recumbent (em português quer dizer reclinada). Tentaram os modelos tradicionais mais sentiam dor nas costas e braços. Nos cuidados com alimentação dizem que comem comida orgânica, e que em todo país tem a comida que o povo local come todo dia que é barata e alimenta bem. É essa comida que procuram comer.

França, Alemanha, Áustria, România, Bulgária, Turquia, Irã, Emirados Árabes, Índia, Nepal, Tailândia. A menina que gostava de ficar admirando o mápa-mundi e o menino que sonhava em viajar possuem ainda muito caminho pela frente. Os planos estão mudando. Quando os encontrei em Bangkok estavam na dúvida se desciam ao sul da Tailândia e arriscavam pegar um barco para a Austrália, porém caso não houvesse barco correriam o risco de ter que esperar a estação de chuva passar para retornar cruzando a Tailândia e seguir pelo norte. Partiriam naquela manhã e ainda não sabiam aonde ir. Iriam primeiro a livraria dá uma pescada no Lonely Planet, o qual não possuem por ser muito pesado e muito dispendioso uma vez que estão sempre mudando de país. Agora olhando o blog deles, vejo que foram ao sul e chegaram à Malásia.

A empreitada tem previsão para terminar no Natal de 2010. Estão nos planos Japão, Tibet, novamente Índia dessa vez ao sul, entre outros países. Se ficou curisoso para saber onde Alice e Cédric estão ou quer saber um pouco mais sobre o projeto: http://portraitdeplanete.blogg.org (em francês).

por Joana Tavares

Começando…

Viajar, viajar, viajar. As pessoas viajam por motivos comerciais, por curisosidade, porque buscam algo…quantos motivos existem para viajar? Quando vejo essas pessoas com mochila nas costas, em uma guesthouse ou dormitório ermo em um cidadezinha, passagem para outra cidadezinha que é passagem para outro lugar, sempre tenho vontade de perguntar: o que você está buscando? Pergunta que poderia ser feita de outra maneira: o que nós estamos buscando?
É difícil dizer. Talvez cada rota e cada indivíduo traga razões diferentes. Mas acredito que uma coisa há em comum: todos buscamos alguma coisa, senão não teríamos movido o primeiro passo. Talvez aventura, talvez novidade, conhecimento, uma nova chance, talvez experimentar seguir sem buscar nada, talvez uma razão para voltar. Ainda vou fazer uma enquete e colocarei uma matéria sobre essa pergunta.
Outra coisa há em comum também quando se viaja – se é estrangeiro. Estrangeiro de outro bairro, de outra cidade, de outro estado, de outro país. E há uma ou tantas coisas – a feição, o andar, a língua, a roupa, a mochila, que apontam para isso. Na Índia, quando andamos na rua, escutamos repentinamente de algum nativo where are you from? where are you from? ou ainda adivinhações como Israel? Itália? Brasil? Quando já sabem de onde você é resumem em dizer ! o nome de seu país. Às vezes a pergunta é weru fom, e não é pela distância do falante ou rapidez da pronúncia. Se você aproximar-se e pedir para repetir devagar, escutará novamente werufom. Pois talvez ele saiba do inglês nada mais do que essa pergunta essencial, que é ao mesmo tempo uma afirmação e diz muito das partes envolvidas no ‘diálogo’. Mesmo que você passe direto e não responda, seja por pressa, seja por está tão acostumado às vezes até incomodado pela abordagem, a pergunta ainda diz muito de você. Diz que você não é dali, que você traz algo de diferente. Pode ser dinheiro, roupa, história, educação, pensamento, mas há uma diferenca.
Mas não só aqueles que estão em sua cidade vendo turistas irem e virem têm essa curiosidade. Também entre aqueles que viajam sempre há essa pergunta– de onde você é? E por trás ou em seguida vêm tantas outras – quanto tempo está aqui, porque está aqui, aonde você vai etc. Em uma pequena frase aparece a vontade de aproximar-se ou conhecer um pouco da diferença. Where are you from? De onde você é?
Esse blog vai ter matérias de lugares e acontecimentos por onde eu passar. Seja uma história, um fato, um hábito, uma lei, uma rotina de alguém. Em todos os lugares pessoas vivem suas vidas normais e acostumadas com sua estrutura, parecendo-lhe ser tão familiar e única. Quando contada, quando vista de fora, de longe, essa mesma vida pode parecer extraordinária e colaborar, acrescentar ou entrenter alguém. Mesmo encanto que há quando tantos nos perguntam, quando viajamos, do lugar de onde somos.

por Joana Tavares